‘Paraguai não é para CLT’: o que brasileiros contam em grupos sobre a vida no país e a crise do Ueno

Brasileiros que já moram no país comentam sobre a vida de imigrante e política dos países, dão dicas e alertam contra 'kit ilusão' paraguaio.

Redação
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Bandeiras do Paraguai são penduradas na fiação elétrica de via da capital Assunção, no dia 5 de novembro de 2026 — Foto: Cesar Olmedo/Reuters

Dicas de onde morar, sugestões de negócios e até indicações de açougue. Nas redes sociais, grupos de brasileiros que vivem ou pretendem se mudar para o Paraguai funcionam como uma rede de apoio, mas também como um choque de realidade: para quem chega sonhando com a mudança, os veteranos avisam que a vida lá é difícil e que “aqui não é pra CLT”.

As conversas sobre oportunidades e perrengues têm agora mais um assunto: a crise que deixou clientes do banco Ueno sem acesso ao dinheiro e levou ao impeachment do presidente Santiago Peña, que está em prisão domiciliar.

O número de usuários, que chega quase a 90 mil no Facebook, é um reflexo do crescente interesse dos brasileiros pelo irmão latino. Entre janeiro e outubro de 2026, 67% das autorizações de residência a estrangeiros no período foram concedidas a pessoas com cidadania brasileira, segundo o governo paraguaio.

Para entender como funcionam esses espaços e quais assuntos são discutidos, o g1 acompanhou grupos, analisou as publicações compartilhadas e conversou com integrantes que vivem no Paraguai.

Os comentários sobre a crise
No WhatsApp, uma usuária compartilhou um link para uma imagem que compara a crise enfrentada pelo país com a crise do Banco Master no Brasil.

Lá, a crise derrubou o governo. Aqui, quem caiu foi a investigação”, diz a imagem, que apresenta o anúncio de renúncia de Santiago Peña como exemplo de uma reação mais rápida das autoridades paraguaias.

Na legenda, a publicação afirma que a crise provocou protestos e pressão popular no Paraguai, enquanto questiona a atuação das autoridades brasileiras no caso envolvendo Daniel Vorcaro, que está preso.

➡️Santiago Peña foi sócio de um grupo empresarial ligado ao Ueno Bank até março de 2025, relação que levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.
A comparação com o Brasil também apareceu em outras mensagens do grupo. Ao comentar a situação dos bancos paraguaios, um participante comparou o episódio ao confisco da poupança durante o governo de Fernando Collor.

Sim, aconteceu mais ou menos que Collor fez, mas aqui [Paraguai] foi um banco só por enquanto”, escreveu.

Outro integrante questionou se a situação era semelhante à do Banco Master. Em resposta, uma participante elogiou a reação da população paraguaia e criticou o cenário político brasileiro.

“Com a diferença que aqui todos foram punidos, porque o povo não deixou barato”, afirmou.

Para além das comparações, o grupo também tem servido como espaço para brasileiros afetados pela crise bancária compartilharem suas preocupações e experiências. É o caso da médica Katrye Lucena, de 27 anos, que teve o salário do mês retido.

Interesse pelo Paraguai é crescente
Embora questões políticas apareçam nas discussões de brasileiros nas redes interessados em morar no Paraguai, o crescimento da migração para o país também está relacionado a fatores econômicos, oportunidades de negócios e à procura por cursos de Medicina. (Como explicou o g1 aqui).

Além disso, o aumento da presença brasileira é resultado de uma política de atração de investimentos e estrangeiros desenvolvida há mais de uma década, como afirma o pesquisador em relações entre o Brasil e o Paraguai e professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Aníbal Orué Pozzo.

“Nos últimos 12 anos, o Paraguai estruturou uma política para atrair investimentos e pessoas do Brasil. O que vemos hoje é resultado desse processo”, explica.

 

Entre janeiro e outubro de 2026, brasileiros receberam 34.794 autorizações de residência no Paraguai, o equivalente a 67% das autorizações concedidas a estrangeiros no período, segundo a Direção Nacional de Migrações do país.

Entenda a crise do banco Ueno
O Paraguai vive uma profunda crise política após vir à tona um escândalo envolvendo a quebra do banco Ueno, que deixou milhões de clientes sem acesso aos próprios depósitos.

O Ueno, que pertence ao Grupo Vázquez, fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central iniciou o processo de liquidação da instituição.

A autoridade monetária identificou uma insuficiência de recursos para cobrir as obrigações do banco, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição.

O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.

Peña, que também é economista, foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março do ano passado.

Na quinta-feira (5), em meio à pressão política, Peña anunciou que pretendia renunciar ao cargo. A Câmara dos Deputados, no entanto, aprovou a abertura do processo de impeachment contra ele.

Na prática, o Congresso ignorou o pedido de renúncia do presidente. O Senado deve retomar a análise do impeachment contra Peña nesta sexta-feira (6).

Fonte – G1

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